Eu lembro de descobrir minha sexualidade num arrepio e a cada dia conseguir juntar mais peças que mostravam a metamorfose da mera curiosidade infantil por certos garotos até a formação de uma sexualidade. Mesmo nos meus 12-13 anos, eu era um questionador sobre tudo que envolvia esse novo mundo de possibilidades que estava se construindo através da destruição de qualquer projeto heterossexual imaginado anteriormente.
A descoberta da minha sexualidade coincide com a morte do meu pai em 2008, apartir dai cada vez mais eu vou descobrindo e refletindo sobre minha sexualidade. A morte do meu pai destruiu qualquer tabu sexual que poderia haver em relação a homofobia na minha casa, não havia mais nada a temer, mas ainda assim algo me assombrava nessas descobertas.
Não era o medo da homofobia e da descoberta pelos outros e sim o medo de que a minha sexualidade fosse me levar ao completo isolamento, eu não tinha afinidade com o que era considerado "gay", apesar de apreciar garotos afeminados e seu mundo, eu sentia que eu não pertencia a aquele lugar e que isso me levaria ao apartamento social por parte deles.
Com a descoberta da minha sexualidade eu pude levar o sentimento que eu sentia por alguns garotos a outro nível, o sexual e o afetivo, abandonando os sentimentos de amizade e admiração platônica que eu sentia as vezes e muitas vezes interpretava como sintomas da minha asperger. Agora eu podia desejar sem nenhum limite e fui rapidamente a procura deles nas minhas primeiras pesquisas, inicialmente através de pesquisas inocentes como "boys", "cute boys" "blond boy" (homenagem a um amigo que eu tinha na época que eu gostava bastante) e rapidamente fui guiado a novos termos como "twink" e a novos nomes e referencias.
A pornografia era sem dúvidas um novo mundo, assistia com um misto de curiosidade, interesse pelo aprendizado e por um ceticismo inicial, pois diziam para não confiar muito na pornografia. Apesar desses ditos a pornografia gay parecia ter muito a ensinar, lembro de ter achado genial a sacada de um casal ao realizar um frottage do nada, parecia uma forma engenhosa desse novo mundo sexual que eu estava descobrindo.
Eu assistia com atenção as cenas de sexo oral para tentar descobrir a técnica correta, igualmente interessado estava pelo tão "famoso" sexo anal, observava os movimentos do ativo e ficava perplexo diante das demonstrações de prazer do passivo. Lembro do choque inicial que eu tive ao ver minha primeira cena de cunete, não conseguia admitir a principio, mas com o passar do tempo aquilo se tornaria especial pra mim assim como todo o resto.
Meus primeiros videos eram reflexos das minhas pesquisas e me mostravam modelos brancos e magros com rostos delicados alguns mais bonitos que os outros é verdade. Algumas vezes eu caia no porno latino bem popular na epóca, o meu favorito e primeiro video pornô da vida era o Latino Fiesta que tinha uma cena muito legal entre dois twinks latinos, foi uma das primeiras cenas a ficar registrada na memória.
Eu também acompanhei o inicio do império da Helix Studios como gravadora twink assistindo pequenas cenas e trailers de suas produções, essa gravadora viraria referencia pra mim em pornografia especialmente pelas cenas entre twinks em que havia um forte desejo mutuo entre os atores. Acho que no entanto a pedra fundamental de tudo foi quando eu descobri o trabalho de Brent Corrigan pelo Cobra Studios e ele se tornou um arquetipo do tipo de garoto que eu desejava.
Falar da construção do meu desejo me dá espaço para refletir sobre os processos que levaram a ele e também sobre as exclusões e violências que eu causei e sofri. Para mim é natural gostar de garotos com características mais joviais ou com traços menos masculinos, porém a pornografia me levou a direcionar esse desejo majoritariamente a garotos brancos com biotipo euroupeu ou white american de classe média, a única coisa que causou uma leve cisão com isso foi a aproximação com a pornografia latina que me permitia observar pessoas com tons de pele um pouco mais escuro.
Logo esse desejo foi conduzida de forma racista excluindo totalmente pessoas negras e asiáticas que jamais protagonizavam os meus filmes favoritos. Quando eu fui introduzido ao pornô interracial mais uma vez a exclusão se fez presente, graças ao racismo fetichista que explora a hipermasculinidade do homem negro as produções que eu via retratava os caras negros como seres irascíveis que fodiam com força e violência os garotos que eram alvos da minha atenção no filme, despertando na minha jovem versão uma especie de aversão a essas pessoas que despertavam inseguranças na minha ainda mais jovem versão.
Outra exclusão era a inexistência de pessoas com sobrepeso, todos os filmes que eu via eram protagonizados por garotos bem magros ou com uma leve torneada muscular, Brent Corrigan era o simbolo mais marcante disso com sua cintura fina, rosto angelical e pele tão branca que ficava corada.
Na minha vida eu fui por um período breve uma criança magra, com 8 anos eu comecei a apresentar sobrepeso e com as constantes pressões gordofobicas da minha familia isso arranhou totalmente a minha autoimagem. Eu via os filmes mencionados com um misto de felicidade pela materialização do desejo (mesmo que sob moldes problemáticos já abordados) e pelas coisas fofas que tudo aquilo me despertava, mas também com uma tristeza por não me ver em nenhuma dos personagens representados e pelo medo de não ser desejado.
Os filmes de twink não me despertavam uma disforia muito grande, mas com a descoberta de que o desejo de muitos gays se orientava para a masculinidade hegemonica, essas disforias cresceram exponencialmente, a materialização disso com a pornografia da Men's.com me machucou bastante e me deixou realmente inseguro.
Outra coisa que teve haver com o aumento desses surtos disfóricos foi a descoberta das páginas gays de fofoca e eu passei a virar leitor de contos eróticos. Nos sites eu aprendi que a cobrança pela masculinidade era forte e que se você não dominasse as informações sobre o "mundo gay" você seria excluído. Nos contos eróticos as palavras me dilaceravam mais do que as imagens, enquanto no filme porno minha exclusão era simbólica, no conto ela era verbalizada por alguns protagonistas.
Em muitas narrativas eu via meu objeto de desejo, mas eu nunca me via no seu parceiro e isso se agravou ainda mais com as narrativas de filmes onde a exclusão e o desejo dos meus personagens favoritos pela masculinidade me machucava muito, era extremamente comum os choros noturnos na minha fase de ensino médio.
Tudo isso era reforçado pela minha família extremamente gordofobica o que gerou um forte quadro de disforia onde havia uma dissociação entre o eu real e o eu imaginado, processo comum em pessoas transgêneras, toda essa tristeza acumulada me levou a dietas e privações de comida que me emagreceram em 25 kg.
É preciso dizer que mesmo assim eu não me via incluído na comunidade gay.