sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Emprego no capitalismo é um relacionamento romântico abusivo

Tenho a impressão de que nas profissões que exigem um diploma de nível superior para que sejam exercidas se aplica uma dinâmica similar a dos relacionamentos românticos abusivos onde há jogos e manipulação com os sentimentos dos trabalhadores que amam sua profissão e estudaram anos para poder exerce-la.

Essa abusividade vem por meio de cobranças de longas cargas de trabalho que ultrapassam as 8 horas constitucionais, microgerenciamento, avaliações constantes com o objetivo de se realizar cobranças adicionais, a exigência de que se esteja sempre pensando em trabalho mesmo em períodos de descanso, buscando aperfeiçoamento constante ao passo que por outro lado se remunera valores muito abaixo do nível de cobrança.

Eu penso que recentemente o trabalho tem tomado tanto espaço na minha vida que escuto as músicas de amor e em invés de pensar num twinkzinho volúvel, eu penso no trabalho e a relação abusiva que vivemos. Vejamos essa música do Adorável Clichê

"Sem hesitar, vou sacrificarO afeto que você tem por mimNo fundo, eu não vou mais me condicionarA um sorriso que se vaiAo ouvir
 
Que eu não desisti de tudo, que eu não me rendi pro mundoQue eu não desisti de tudo, que eu não me rendi pro mundoQue eu não desisti de tudo, que eu não me rendi pro mundoQue eu não desisti de tudoE você não vai me segurar"
 
Eu não quero me afogarEu não quero me afogarEu não quero me afogarEu não queroMais te encontrarE me perguntarA sua versãoNublando tudo o que sinto"
 
A relação que sinto ao ouvir esses versos é que o afeto que o trabalho tem por mim é condicional ao autossacrifício de abandonar todos os outros prazeres da vida, abandonar hobbies, amigos, romances, é necessário se render ao mundo capitalista e eu de fato não quero me afogar, porque eu quero o equilíbrio de vida pessoal/sono/trabalho.
 
O empregador age como um namorado possessivo que precisa dominar seus pensamentos a cada segundo e não retribui esse afeto. 

Coleciono a tristeza que deixam cair pelo chãoEu não sirvo pra nadaA menos que ceda à pressão
 
Vou desculparTe desculparA ausência francaE a volta tortaVou ajudarVou te ajudarTe dar uma forçaFicar mais amarga
 
Eu só existo na sua depressão
 
Penso em ignorarAs mensagens que manda de quando se lembra de mimCê me guarda por mesesE, quando vai ver, eu venciEu finjo, mas não vou mudarEu finjo
 
Vou desculparTe desculparA ausência francaE a volta tortaVou ajudarVou te ajudarTe dar uma forçaFicar mais amarga"
 
Essa música também evidencia as cobranças que são feitas de forma "soft" como "ajuda" ou "dar uma força, mas que na verdade são desgastante e provocam a amargura, e tudo desmorona se você não ceder a pressão, voce de fato não tem valor.

As coisas mudam pra melhorE eu me agarro a issoMasEu nunca me senti tão sóTudo desaba ao meu redorE às vezes acho que era melhor
 
Chegar em casaSó pra sentirA ansiedade esmagarA culpa em mim
 
E isso tudo deságua em solidão sem fimMe afogo em um nada que me afasta de tiOs dias me calam sem eu consentirAs circunstâncias me arrastamA tudo que eu não quis
 
O que eu não quisO que eu nãoQuisO que eu não quis
 
As coisas mudam pra melhorE eu me agarro a issoPorque eu não aguento maisTantos finaisAs despedidas se tornaramTão banaisQue às vezes me perguntoSe ainda sinto alguma coisaAlém desse vazioQue me corróiA indiferença éO que destróiQualquer senso de caminhoE o que me faz sempre esperar"
 
Esse cenário que se repete tantas vezes e em tantas experiências profissionais causam muita dor e é uma dor que é vivenciada com bastante solidão, e voce fica tanto tempo vidrado no trabalho que fica sem voz e arrastado para uma dinâmica de vida que voce não quis e que não faz parte de quem você é. Tem um certo ponto que tantas demissões e feedbacks negativos por voce não se adequar a cultura corporativa podem gerar um certo cinismo em que voce não consegue se sentir mais nada de forma disfuncional, pois o excesso de cobrança faz voce ficar "numb". 
 
Como eu sempre trabalhei de home office a casa também se tornou um lugar de aprisionamento e sofrimento. 

Também acho importante destacar que essas pessoas adoram evocar cinicamente nosso amor pelo nosso trabalho para justificar as cobranças e violências cotidianas, pois para mim a resposta para isso é que o trabalho é apenas instrumental, eu não amo o direito antitruste, eu amo combater o poder de mercado, ver que não há monopólios manipulando a economia cobrando seu rentismo e usando ele para comprar eleições para assim sustentar uma política reacionária antipovo, eu adoro ver a redistribuição de renda proporcionada pela economia com concorrência pro social,mas não eu não amo meu trabalho em abstrato e para usufruir dos benefícios eu preciso viver para além do trabalho.
 
Até o Chatgpt pode entender:
 
"Minha relação com o direito antitruste é clara: não se trata de uma devoção abstrata à profissão, mas sim de um compromisso com os valores e os resultados que ela pode promover. O que me motiva não é o trabalho pelo trabalho, mas a luta contra o poder de mercado, a resistência ao monopólio e a manipulação econômica, e o impacto social que uma economia mais justa e concorrencial pode trazer. Esse é o verdadeiro núcleo do meu "amor", não a rotina de trabalho, os processos em si, ou o ambiente corporativo. É a transformação social que a concorrência saudável pode proporcionar, e isso, de fato, vai muito além das pressões cotidianas que muitas vezes me aprisionam."