Arthur: Antes de tudo eu queria que você me contasse mais sobre quem foi essa pessoa.
Rubens: Maria Callas foi uma soprano grega muito famosa no período pós-guerra, tendo seu auge na decada de 50 cantando com grande sucesso uma série de óperas italianas de autores como: Verdi, Donizetti, Rossini, Bellini e até Puccini. Ela é considerado por muitos especialistas a melhor soprano da história e a cantora de referência em várias óperas.
Arthur: Quais foram as grandes contribuições de Maria Callas ao mundo da ópera?
Rubens: Ela trouxe inúmeras contribuições ao mundo da ópera, vou tentar enumerar algumas que me lembro agora. Ela popularizou as gravações de ópera que apesar de já existirem na época, o fascínio pelo seu canto aqueceu esse mercado fazendo com que cada vez mais óperas fossem gravadas e guardadas para a posteridade. Sua persona que encarna tudo aquilo que imaginamos em uma "Diva" atraiu muitas as pessoas para os teatros e ao mercado de ópera, fazendo com que esse gênero permanecesse muito popular em uma período de natural decadência do estilo devido ao surgimento de outros gêneros que tinham mais apelo com a juventude.
Maria Callas ressuscitou o repertório belcantista que estava esquecido ou mal interpretado pelas cantoras da época. Isso acontecia, pois aquele repertório era de grande dificuldade pelo alto nível de coloratura das personagens e também por exigirem que a soprano emprestasse uma grande carga dramática naqueles papéis. Os poucos papeis belcantistas que existiam eram cantados pelo que chamamos de "sopranos canarinhos" como a Lily Pons e Roberta Peters, que apesar de excelentes cantoras faziam interpretações muito superficiais e excessivamente "agudas" das personagens.
Obs: Essa ária é muito bem executada pela Lily Pons, especialmente a nível de coloratura, mas representa uma Rosina um tanto desalmada, apenas superficialmente apaixonada. O canto é um grande destaque, mas com a evolução do papel se exige mais dramaticamente da cantora e a voz da Lily é muito magra e aguda para o papel pensado para mezzosopranos originalmente
A interpretação da Maria Callas por outro lado, se preocupa especialmente com a entonação de cada frase de Rosina, animando elas com um paleta diversa de emoções que variam da euforia até a delicadeza apaixonada comum a personagem. Há ao mesmo tempo há um cuidado muito grande com a coloratura da personagem, muito bem executada por Maria Callas em 1954 no auge de suas capacidades.
Essa profundidade dramática que Maria Callas adiciona nas personagens proporcionou uma grande revolução na forma de cantar esses papeis e permitiu a ressurreição de óperas esquecidas como: Anna Bolena, La Sonambulla, Il Puritani, Lucia Di Lammermoor (raramente executada) e em especial a Norma.
Arthur: Grandes contribuições! E quais você acha que foram os papeis em que ela mais se destacou e o porquê?
Rubens: Maria Callas se destacou em uma grande porção de papéis, mas vou tentar me atentar a seus maiores sucessos.
Lucia de Lucia Di Lammermoor de Donizetti, ela tem 3 gravações oficiais do papel e cada uma se destaca pela leitura psicológica que Callas faz da cena da loucura, dando profundidade a insanidade vivida pela Lucia, um dos momentos mais mágicos do estilo. Minha gravação favorita é a de 1955 onde por ser ao vivo podemos ouvir a ovação que ela ganha após o fim da cena.
Floria Tosca de Tosca de Puccini, sendo que a gravação de 1953 sob a batuta de Victor de Sabata é uma das melhores da história da ópera. Destaque para o conflito entre Callas e Gobbi no segundo ato da ópera. A interpretação da ária Vissi D'Arte contida nessa gravação é uma das coisa mais lindas que pode ser escutada dentro da ópera.
Essa interpretação é um culto a arte e a toda beleza que dela pode provir. Basicamente nesse momento Floria Tosca destaca que ela por proporcionar tantas benções através da arte que é uma extensão da sua própria existência não deveria estar sofrendo o peso das tribulações que enfrenta no momento. Callas acrescenta em sua interpretação: melancolia, desespero e um encanto quase religioso. A pontuação das palavras é de revirar a alma, o legatto no momento clímax da ária é o mais tocante de todas as gravações da ópera
Norma é o papel pelo qual ela mais se destacou e acho que chega a dispensar comentários, ela não tem nenhuma rival no papel. Outros papeis de grande brilho são: Violetta (La Traviata), Gilda (Rigoletto), Gioconda (La Gioconda), Rosina (Il Barbiere Di Siviglia), Anna Bolena (Anna Bolena), Amina (La Sonnambula), Elvira (Il Puritani), Medea (Medea), Leonora (Il Trovatore), Lady Macbeth (Macbeth)....
Arthur: O que você tem a dizer sobre a rivalidade dela com a soprano italiana Renata Tebaldi.
Rubens: Essa rivalidade é uma grande bobagem e nasceu aqui no Brasil, sabia? Elas visitaram o Brasil em datas parecidas e o público daqui tentou colocar uma contra a outra criando essa rivalidade descabida.
O repertório delas é diferente também, Tebaldi é especialista no repertório pucciniano, Verdi lírico e verismo, enquanto o repertório da Callas era mais focado em óperas belcantista italianas que exigiam coloratura. Elas tinham alguns papeis em comum como Aida, La Traviata e Tosca, mas acho que isso seja muito pouco para compara-las.
Faz mais sentido rivalizar a Callas com a Sutherland do que com a Tebaldi.
Arthur: Você mencionou várias características que tornam a Maria Callas umas das cantoras mais singulares da história da ópera, teria algo a acrescentar?
Rubens: Mais coisas? (risos). Eu acho que existe algo mágico na forma de cantar da Maria Callas, pois ela em comparação com outras grandes sopranos não possui o melhor e mais doce timbre de voz e nem uma técnica perfeita como a das cantoras que vieram a sucede-la. Mas ela tem a alma na voz, um pahtos, uma energia incrível na hora de animar suas protagonistas que encanta muito o ouvinte, uma beleza singular jamais vista e igualada.
Arthur: Indique uma gravação a quem nunca a ouviu
Rubens: Sem sombra de dúvidas vou indicar a Tosca gravada em 1953 que tem completa no Spotify, também é legal começar pela La Traviata de 1958 cantada em Portugal na companhia de Alfredo Kraus. De coletânea de árias acho que uma boa indicação nesse universo de coletâneas da Callas é o Pure que contêm 18 músicas.
Arthur: Muito obrigado pela entrevista
Rubens: Foi um prazer.

Sou Eldo , deixei comentário np blog Metal Guide , é seu ?Desculpe mas eu não estou entendendo são quatro bloggers? Se puder me de umas dicas para ver se estou conseguindo me comunicar com voce. Muito obrigado.
ResponderExcluirEldo, o Metal Guide é meu, lá escrevia outros escritores, mas eu que organizava e editava tudo. Esse blog é mais pessoal e até por isso propositalmente underground. Mas fica a vontade.
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