Título do álbum: Russian Album
Interprete: Anna Netrebko
Maestro: Valery Gergiev
Faixas Favoritas: 2, 4 e 11
Para qualquer pessoa que está iniciando no mundo da ópera é sempre difícil saber por onde começar e as vezes 2 horas de uma ópera desconhecida que só se ouviu falar por breves releases é um caminho muito duro. Por sorte existem os discos de árias, eles vão direto ao que interessam que são as árias da ópera, sem enrolação e grandes histórias, eles são como um best of operístico, mas sem o tom desrespeitoso dos best ofs.
Os discos de árias ficaram famosos pela gravação de recitativos de soprano quando estas se apresentavam em algum teatro, depois viraram um gênero de mercado se popularizando com Maria Callas, enfim vamos focar no disco de hoje.
Anna Netrebko foi uma grande revelação da ópera russa, suas atuações brilhantes em óperas de Rimsky e Korsakov e Glinka, alçaram a jovem russa ao estrelato nos grandes palcos de ópera. Em 2003 ela gravou seu primeiro cd de árias, disco que foi muito elogiado pela crítica da época e no mesmo ano ela estreou no imponente MET no papel de Natalya em War And Peace de Prokofiev. Nos anos subsequentes conquistaria ainda mais o público internacional, principalmente no papel de Violeta de La Traviata.
Anna Netrebko é uma soprano lírico com uma voz quente e escura, mas timbre delicado e melodioso, a voz contém alguma agilidade para interpretar papeis de coloratura, nos anos subsequentes sua voz ganhou mais volume e agilidade para encarar os mais difíceis papeis. No lançamento de Russian Album no fim de Outubro de 2006, sua voz ainda era lírica e encantadora, perfeita para interpretar as árias da ópera russa.
Russian Album foi um dos primeiros álbuns de árias que ouvi, ele contém excertos de rara beleza e representa muito bem a ópera russa, o disco foi muito bem recebido na epóca, aumentando ainda mais a popularidade da soprano que nesse disco voltava as raízes depois de representar vários sucessos da ópera ocidental.
Minhas faixas favoritas são as árias de The Snow Maiden (4 e 5), Francesca da Rimini (11) e os "songs" de Rachmaninov (2 e 3), o disco é quase impecavel, o único tropeço se dá no fim na cena da carta de Eugene Onegin (12), onde falta a soprano uma densidade dramática, anos mais tarde ela corrigiria esse defeito, fazendo uma Tatianna impecavél.
A crítica da Gramophone foi bem elogiosa com o CD, o disco foi uma das "Editors choice" do mês de Novembro de 2006 e foi finalista do Grammophone Awards de 2007 na categoria de recital. Deixo aqui a crítica integral traduzida para o português:
Review da Gramophone em 2006
Patrick O'Connor
"Anna Netrebko enquadra seu recital com duas grandes heroínas da ópera russa dos séculos 19 e 20: Tatyana de Eugene Onegin do Tchaikovksy e Natasha de War and Peace de Prokofiev. Claramente essa duas personagens tem algo em comum, as duas sofrem de infelicidade e amores que não deram certo. Netrebko ainda precisa interpretar Tatyana nos palcos, mas Natasha foi um de seus papeis mais bem sucedidos na Russia e em outros lugares (Foi o seu papel na sua estreia no MET).
A cena de Prokofiev escolhida foi a parte 4 do primeiro ato. quando Natasha está dividida entre seu amor por Andrei e sua atração irresistível pelo dissoluto¹, Anatol. Vários do temas principais de Prokofiev são lembrados, como Natasha é conduzida em direção ao homem errado. Nisso, na seção principal de Tatyana, cena da carta, Netrebko dá a personagem um humor contrastado pela ansiedade, Natasha cheia de pressentimentos e Tatyana queimando de esperança juvenil, Seu canto delicado (soft) e sofisticado, não demonstrando nenhum sinal de nervosismo, em uma voz que pode soar como uma mera soprano eslava.
Junto com outras árias um pouco menos conhecidas, Netrebko empresta uma eloquência grandiosa as cenas de Tsar Saltan de Rimsky-Korsakov e imediatamente usa uma voz mais jovial para abrir Snow Maiden. A ária de Glinka fala de uma história que remonta ao inicio da ópera russa nacionalista. Os "songs" de Tchaikovsky e Rachmaninov são ouvidas a despeito de arranjos orquestrais bastante exagerados, mas Netrebko os canta em um tom arrebatador e ao mesmo tempo encantador.
A orquestra de Mariinsky e Gergiev estão, claramente, na sua sua zona de conforto (ópera russa) e na gravação há um balanço entre a voz da soprano e a orquestra. Esse é o melhor álbum da Netrebko até o presente momento e com certeza trará novos adeptos para a ópera russa.
Notas de tradução
¹Eu traduzi "Rakish" como "Dissoluto" para homenagear um dos grandes personagens de Mozart, Don Giovanni, da ópera homônima que tem como título completo em italiano: "Don Giovanni ossia il Dissoluto Punito". Rakish é referente a um cara rico que mantém relações sexuais com várias mulheres, exatamente como o personagem mozartiano referido.

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