domingo, 5 de maio de 2019

Pornografia: Contemplação e Ansiedade

 




Minha relação com a pornografia foi sempre algo que esteve nas minhas reflexões, vários questionamentos sobre estética, ideologia, desejo, técnica, ética e outras discussões. Mas hoje quero ir na raiz do meu envolvimento e para fazer isso creio que seja necessário voltar lá atras nas minhas motivações iniciais para assistir pornografia e a partir daí lançar alguns questionamentos.

Pornografia online é um meio de mídia muito marcante na vida de um jovem garoto cisgenero, porém é diferente para os héteros em relação aos meninos gays. Basicamente héteros assistem pornô para saber como é o sexo sem as barreiras e censuras da mídia tradicional, eles entendem a pornografia como um vídeo onde eles vão descobrir como é que as coisas são feitas.

Pra mim enquanto garoto cis que gostava de meninos a pornografia assumiu uma função muito maior do que uma descoberta de "como as coisas são feitas", naquele ponto a pornografia seria o meu primeiro contato explicito com qualquer vivência gay, eu ia ver sexo antes de sequer ver um beijo entre dois indivíduos do mesmo gênero.

Pra héteros a pornografia é proibida por ser explicita e poder corromper a ainda "inocente" alma dos jovens rapazes, a relação heterossexual é sacralizada, então o contato com a pornografia é o contato com uma forma vulgar dessa relação e por isso é desaconselhada para os jovens. Porém tudo isso vem com um viés hipócrita, pois ao mesmo tempo que o consumo de pornografia é reprovado pela família, ele é incentivado e atiçado pela mídia que está sempre instigando a curiosidade dos jovens rapazes e tratando o sexo como fim último da existência masculina.

Para os gays é diferente, pois no nosso caso a perversão está no mero desejo por um individuo do mesmo gênero, então a primeira barreira moral já está derrubada, todo jovem gay assiste pornografia sabendo que está descendo nas profundezas da perversão sexual, o que torna toda a experiência ainda mais libertária do ponto de vista metaético.

A mídia não incentiva a sexualidade entre rapazes de modo direto ao fazer isso ela cria um vazio de narrativa e representatividade que esperamos satisfazer assistindo pornografia, é uma reação agressiva contra a ausência de representatividade da mídia.

Quando eu assisti minha produção pornográfica eu tinha apenas 12 anos e eu estava exercendo o direito de ver e sonhar com aquilo que estava me sendo negado pela mídia que diariamente me mostrava vários rapazes bonitos se relacionando com o gênero oposto, o que me fazia sentir fora da jogada e assistir pornografia era a vingança.

Finalmente eu ia ter aquilo que eu queria ver, pra mim era muito mais que a busca por prazer, era a busca por identidade, respostas e representações. Claro que também existia um pouco de prazer envolvido, finalmente o meu eu de 12-13 anos saberia como seria se o Cole Sprouse fosse gay, ou, pelo menos alguém parecido com ele.

Minha primeira cena gay envolvia um casal fazendo Frottage o que de certa forma foi meu amuse-bouche para as minhas próximas cenas. Acessar o Pornotube na categoria gay era semelhante a sensação de se encontrar um livro que contém a resposta para uma pergunta que você está encucado.

Minhas primeiras pesquisas envolviam "young boys", "blond boy, essa última bastante influenciada pela minha construção do desejo moldado a favor de garotos brancos pela mídia neonazista do período que nunca retratavam pessoas negras como personagens principais, problema que persiste em menor intensidade nos dias de hoje.

Eu lembro que meus primeiros resultados envolveram o famoso pornô twink "Fiesta Latino" (que tinha minha cena de sexo anal favorita entre dois garotos bem gatinhos fazendo flip flop), mas talvez as descobertas mais icônicas foi a de que o que me atraia tinha nome técnico e se chamava "twink" e por fim a descoberta da Helix Studios e do meu "Blond ambition boy", Tommy Anders, ele é a capa do post.

Pra mim aquilo passou a representar todas as histórias de relacionamento entre dois garotos que eu conhecia, as narrativas da Helix Studios em seus filmes com o Tommy Anders (sempre ativo, pra minha tristeza) mostravam que existia um mundo onde era possível se relacionar com outro garoto e extrair disso o máximo de prazer.

Porém minha epifania envolvendo twinks aconteceu mesmo quando eu descobri o Brent Corrigan em uma cena de Cream Boys, filme de 2004, e naquela cena eu olhei e rapidamente pensei: É isso! Naquele momento eu havia descoberto exatamente o meu tipo de boy e onde eu podia posicionar meus desejos mais etéreos. Fiquem com o trecho censurado que motivou isso.

 Falar sobre isso é sempre muito emocionante, pois remete a um período onde eu só estava descobrindo as coisas sem saber ainda dos aspectos problemáticos do mundo gay. Sem dúvidas a descoberta da pornografia foi libertadora, mas ao mesmo tempo me gerou várias angustias e medos.

Eu obviamente não me satisfiz com a pornografia visual e foi atrás dela na forma de texto e foi por lá que eu descobri os aspectos mais opressores da sexualidade masculina que davam motivação aos atos sexuais. Nada das cenas bonitas envolvendo twinks, eu estava adentrando o terreno sombrio da verdadeira pornografia.

Eu procurei por fora do mundo da pornografia e todos os gays pareciam ter frases bruscas e violentas para descrever o desejo sexual e mais uma vez eu me vi fora da narrativa. Mas não foi isso, meu corpo também não estava representado em nenhum filme o que aumentou minha sensação de solidão.

Os filmes e curtas gays cinematográficos também não tinham espaço para pessoas como eu e reforçavam a narrativa "twink x jock" que me excluia da jogada.

E eu acho que foi essa reflexão que fiz tão jovem que me levou a várias reflexões tristes durante os anos e a pornografia acabou virando isso pra mim: a contemplação do belo, atrativo e o mundo de fantasia vs a exclusão do meu corpo da narrativa.

E essa é a base da minha angústia quando falamos de pornografia.

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