terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Meu amor é uma flor do deserto

Meu amor é uma flor do deserto
Dedicada a Gustavo Costa


Flor nascida do verde áspero pontiagudo
Banhado do amarelo avermelhado flamejante
Fusão do azul aéreo, árida areia amarela
sobrevivente do escuro opressor da noite

No deserto as flores sobrevivem fechadas
a guardar úmidas melodias rosáceas
assistindo a vaporosa danças das estrelas
E a areia fumegante, formigava sublimando pelos ares

Formigas tentaram furtar suas cores
a pretexto de carícias morderam suas pétalas 
Obstruíram sua luz, sugaram o mel amargo 
da dolorosa dor desesperançosa

Miraculoso trabalho da natureza
Ao regenerar minuciosamente a bela flor
em uma noite a flor se abre, liberando 
uma galáxia de aromas, sinfonia das cores mais doces

Eu, morcego, estranho polinizador
afundo-me na flor de cabeça como em paradisíaco sonho de veludo.
Nem beija-flor, abelha, borboleta ou mariposa provarão do doce nectár.
Morcego e a flor namorarão na sombra noturna
ao mesmo tempo tão clara quanto o céu estrelado.

Rubens Cantanhede Mota Neto

Comentários

Não é muito comum os autores comentarem suas próprias poesias, mas eu gostaria de contar um pouco do processo criativo por trás dessa pequena obra. Ela foi escrita como um presente para o meu namorado, Gustavo Costa, e tem como inspiração o processo de polinização realizado por morcegos em flores desérticas que só desabrocham anoite e por esse motivo não são polinizadas pelos animais diurnos.

Minhas influências são o simbolismo brasileiro de Cruz e Sousa e o francês com Baudelaire e Rimbaud, também sou influenciado pelas escolas estéticas do século XIX que tem como expoente mais conhecido Oscar Wilde, outras influências vem do expressionismo.

Eu acredito em uma poesia com forte poder imagético, uma poesia onde a expressão artística é mais importante do que o sentido da poesia, onde  o prosaico existe principalmente para realçar o efeito estético. Minha poesia não é abstrata, mas ela não tem uma obrigação narrativa, ela é contemplativa, mas não se engane, estou longe de me encontrar em uma torre de marfim onde fico apenas recitando palavras bonitinhas, ela traz temas da militância muito debatidos atualmente sem deixar isso sobrepor a ideologia estética que mencionei no inicio.

Essa poesia trata de temas como homofobia, bullying e eu construí essa poesia por etapas narrativas que podem ser percebidas no decorrer da estrofe.

Falando da poesia, a primeira estrofes eu construí através de um processo que eu chamo de "decomposição de imagem". É quando você pega objetos e ao invés de se referir a eles diretamente você cita suas características. Eu optei por decompor em cor, textura e temperatura para poder estimular o tato e a visão do leitor ao mesmo tempo.

Em uma assonância eu pego as imagens que eu decompus e as fundo para retornar a um tema solido que remete ao primeiro verso. Minha poesia também faz paralelos entre dia e noite para indicar e buscar diferentes elementos estéticos de composição.

A segunda estrofe é a que mais evidencia minha influência simbolista contendo sinestesia e também um processo em que você submete imagens a processos químicos que não necessariamente acontecem na vida real como "dança vaporosa das estrelas" e "areia fumegante, formigava sublimando pelos ares" tudo visando um objetivo estético.

A terceira e a quarta estrofe seguem a linha narrativa apresentando elementos semelhantes as estrofes anteriores como assonâncias e sinestesia, sendo a quinta estrofe a derradeira onde reside boa parte da influência temática que motivou a poesia. Essa estrofe fala de homossexualidade e homofobia, mas há um tom triunfalista que muito me agrada. A estrofe final deixa aberta algumas interpretações de sentido que são interessantes e percebendo isso eu deixei propositalmente.

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