Encantado Pela Vespa
Olá belo efebo da cor da flor
Foste encantado por uma vespa?
Tão dura,débil,disforme e doente beleza
forte torpor venenoso de dor.
Porém vespas não podem polinizar sua flor
elas apenas ferroam calorosamente a provocar visões ensurdecedoras.
Matam as abelhas para poder se deliciar dos vermes,
mas o verme não reclama do arado que o parte,
ainda que seja em dois deixando a carcaça apodrecer lentamente
em sonhos febris e ardentes, murcha ilusão.
O rosto monstruoso em pelos flama
o olhar como quelíceras esbagaçam a beleza
Feroz olhar, dura feição, corpo de tijolo.
De camuflagem horrenda, no meio das flores
a devorar as borboletas, arrancando os olhos e as antenas
e por fim as asas.
Difícil simpatizar com essas pobres doces criaturas
que se deixam escravizar pela força para provar o
néctar vermelho amargo e humilhante.
A bela plumagem multicolor das aves
se desfazem em sabor na casa do caçador.
Em túnica plumosa ele desfila em cor
sob o aplauso das aves em livres gaiolas
Sob a pelugem facial colorida em arco-íris
Ele diz que é belo e assim foi.
Rubens Cantanhede Mota Neto
Comentários
Poesia com forte carga de simbolismo que é gerada através do forte uso da prosopopeia, composta com muita fúria e possuidora de uma imagética sombria e melancólica difere um pouco do que geralmente eu componho e foi composta em um momento de grande reflexão pessoal.
Essa poesia a exemplo da "Meu amor é um flor do deserto" possui como inspiração temática a natureza e o estudo da zoologia. A vespa a que me refiro é a vespa mandarina, a maior do mundo, conhecida pelos seus hábitos carnívoros, um grupo de poucas vespas podem dizimar um ninho com 30000 abelhas em algumas horas para roubar o mel delas, devorar suas larvas e as vezes comer as próprias abelhas no processo. Ela também é uma especie de vespa que não poliniza nenhuma flor.
Eu faço referência a outros animais também como aranhas, louva-deuses, borboletas e aves... Todos esse animais são na verdade símbolos que como numa peça de teatro executam um papel de um personagem da história. Porém posso dizer como pista que a vespa/aranha/louva-deus/caçador são o mesmo personagem predador ao passo que efebo/abelha/verme/borboleta/doces criaturas/aves são o mesmo personagem presa.
Essa multiplicidade de animais apenas foi utilizada para aumentar as possibilidades imagéticas, porque no fundo o que importa é entender a existência desses dois personagens. Essa poesia tem um sentido definido, mas nela eu me mantenho fiel ao meu credo poético em que o prosaico dentro da poesia deve se expressar sob uma grande camada imagética que é uma das principais características do que eu escrevo dentro da poesia e sempre foi algo que admirei nos meus idólos.
Apesar de ter um sentido definido, eu deixei algumas ambiguidades propositais em alguns versos da poesia para incentivar o raciocínio do leitor. O primeiro verso carrega muito dessa característica, mas apesar das ambiguidades esse trecho pode revelar facilmente o tema tratado na poesia. Percebam também como o tratamento da "presa" varia de verso para verso.
Posso dar mais pistas quando ao significado dessa poesia dizendo que se trata de uma crítica ácida a comunidade gay, logo se tratando de uma poesia de crítica social. Essa é minha forma de fazer esse tipo de poesia, nunca vou escrever uma poesia narrativa com sentido claro e obvio, se for para fazer isso prefiro escrever um texto em prosa, didático e colocar no facebook.
Características da poesia simbolista como sinestesia, aliteração e toda aquela sensorialidade típica desse período podem ser vistas nessa poesia, meus versos são brancos e livres até porque não estamos em pleno século XXI presos as normas do classicismo do século XVIII*. Porém alguns versos por acaso rimam em algumas das minhas poesias.
Apesar do título e da importância do símbolo, não se prendam exclusivamente a figura da vespa, ela é um gatilho inicial muito importante para as reflexões que eu vou tendo ao longo da poesia, mas se prender a esse simbolo de forma superficial vai fazer vocês ficarem completamente perdidos.
Obs: Há uma citação de um dos provérbios do inferno do William Blake na segunda estrofe da poesia
* Nada contra quem busca metrificar e rimar os versos

Nenhum comentário:
Postar um comentário